Sobre exposição e privacidade

Eu imagino que, como eu, quase todo mundo que começa um blog imagina que está muito mais falando para si mesmo e para alguns poucos amigos do que para uma grande gama de desconhecidos. Mas a verdade é que as pessoas estão ai, navegando, e podem a qualquer momento achar seu blog e começar ou não a acompanhá-lo e a, assim, conhecer você um pouco melhor. Eu iria mais longe e diria que no fundo esse é o desejo secreto (ou aberto) de grande parte dos blogueiros: escrever para ser lido, postar para ser visto ou, no mínimo ter suas ideias vistas.

 

Mas às vezes bate aquela insegurança: será que não estou me expondo demais? Quando faço essa pergunta a mim mesma, acabo preferindo pensar nas outras amigas que também possuem blogs e que espalham um pouco de si pela internet sem efeitos colaterais. Tento então não focar muito nessa questão que, portanto, está constantemente em aberto na minha cabeça. Imagino que se eu pensar demais sobre, acabarei tentada a fugir para uma montanha distante, longe de qualquer sinal de civilização internética. E aí batemos em outro ponto: mesmo que eu faça isso, mesmo que eu apague todo e qualquer vestígio meu dos blogs e redes sociais que tive, a internet tem tantas camadas que eu sei que tudo ainda estaria  logo ali, um centímetro abaixo da superfície, quase tão rápido de ser encontrado quanto hoje. Mais um motivo para desencanar e ficar? Talvez.

 

A cerca de duas semanas, duas coisas aconteceram que trouxeram a tona esse questionamento: uma leitora comentou que gostaria de ver posts mais pessoais, pois ela se identificou muito com o blog e isso é uma vontade que eu sempre tive, mas que sempre esbarrou tanto no medo de atropelar a proposta do blog, quanto de me expor demais. Como que para transformar minha dúvida em exemplo, poucos dias depois fui avisada que estavam usando fotos do meu blog em um perfil de Facebook utilizado para soltar algumas calúnias. Fui verificar e descobri que uma das minhas fotos, sim, de mim mesma, estampava um perfil fake, daqueles que figem ser de gente como a gente, mas que postam notícias de motivação política, fingindo indignação com uma parte e apoiando outra. Já tinha ouvido falar de perfis assim, e não duvidava serem verdade, mas fiquei besta de ver uma foto minha como perfil. Deram a minha cara para essa pessoa que não existe, tudo por conta de uma foto que postei há anos aqui no blog.

 

Trata-se da sexta foto do post “As vítimas dos 30 dias” que foi utilizada dando rosto à fictícia Suelaine Silva, uma menina que gosta de Charlie Brown Jr., de animais sendo estrangulados por cobras, de olhos e do PMDB:

 

sobre privacidade 

 

Denunciei rapidamente a página, inclusive antes de sequer ter estômago para tirar mais fotos e no mesmo instante do Facebook a tirou do ar para avaliação. Antes do fim do dia recebi uma mensagem contando que a página de fato infringia as leis da rede e que já havia sido apagada. Tudo muito rápido e simples. Ainda assim, não menos assustador.

 

Ao ter um blog, Instagram, Facebook, Gmail, Picasa e afins eu acabo assumindo o risco de ter uma imagem minha usada indevidamente? Sim. E ao não ter? Bom, se eu tiver amigos que têm e que postam fotos minhas, imagino que o risco é um pouco menos, mas ainda existe sim. Existe saída? Honestamente eu não sei! Entrar nessa discussão sem bater na questão da liberdade de expressão é quase impossível e não sou eu sozinha, debatendo comigo mesma que vou chegar a uma grande e certeira conclusão. Imagino que o máximo que eu posso fazer é tomar uma decisão sobre continuar ou não a postar (não só no blog, mas em qualquer rede social), controlar na medida do possível meu grau de exposição e, principalmente, estar pronta para ver o uso indevido da minha imagem ou dos meus textos e, especialmente, para correr atrás de tirar do ar a página que acha que falsidade ideológica é ok apenas por estarmos nessa vastidão chamada internet.

 

Então decido seguir postando, consciente dos riscos, mas claro, um pouco mais esperta, um pouco mais temerosa e com o sentimento de obrigação de escrever esse texto para que todo mundo fique atento ao quão fácil é uma ilustre desconhecida como eu se ver em uma situação chata dessa. O bom senso infelizmente nem sempre dá em árvore aqui pelas bandas da internet, especialmente no momento político que vivemos. Essa rede pode ser engraçada, informativa e aproximadora do mesmo jeito que pode ser desrespeitosa, criminosa e mentirosa. Tudo depende de quem está logado. E, por fim, como publicitária, só me resta lamentar constatar como a política segue usando de novo, e de novo, e de novo, a comunicação como um canal de mentiras, qualquer que seja o partido envolvido. É epidêmico, como dizem. A cura? Essa ninguém parece ter achado. 

 

Segue o jogo. 

 

 

 

 

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