Fiz 30 anos

Eu nunca fui muito boa com números. E, veja bem, não estou falando que não sou boa de contas. Estou falando que não sou boa com números mesmo. Meu cérebro parece ter um delay até para reconhecê-los, como quando alguém está ditando o telefone e percebo que demoro alguns milésimos de segundo para ligar a palavra “dois” ao símbolo “2”.

Talvez por isso, idade hoje também não é uma coisa que me aterroriza particularmente. Não mais. Pensando a respeito, chego à conclusão que as vezes que me preocupei com a idade eu não estava incomodada particularmente com o número, mas sim com algumas coisas que eu associava a ele. Conquistas pessoais, profissionais, experiências que acreditava terem que ser vividas antes de completar x anos. Afinal, justamente por ser tão ruim com números eu não consigo jamais compreendê-los em sua totalidade e, a idade sendo um número, eu também nunca consegui mensurar exatamente o que são 20, 25 ou agora, 30 anos.

Olhando para trás, 30 anos parecem mais um bolo de linhas cruzadas do que uma linha do tempo reta e linda. Não que meu bolo pessoal de linhas não seja lindo. Mas ele é lindo daquela maneira mundana: com dor, óculos de grau, choro, tapa na cara, quilos extras, decepção, falta de grana, amores não correspondidos, dor de barriga, unha encravada, aparelho nos dentes, bad hair days, momentâneas invejas, raiva e outros sentimentos alguma coisa diferente de belos e muitos outros momentos que, digamos, não dariam uma bela foto. Mas também teve coisa bonita. E beleza de filme mesmo, como viagens incríveis, gargalhadas de fazer chorar, bater fouetté, proteção de família, cumplicidade de amigas, receber flores no trabalho, conquistas profissionais, beijo na chuva, pegar a chave do primeiro imóvel, ganhar um cachorro, ser pedida em casamento em Nova York, sair em revista…

Mas se eu te disser que eu sei que é isso o que cabe em 30 anos, vou estar mentindo. Isso foi o que coube nos meus 30 anos. Mas idade, e números em geral, são como pequenos infinitos. Por mais que eu saiba quantas unidades cabem em cada número, eu não consigo terminar de listar todas as possibilidades que existem em cada unidade. Quantos pensamentos cabem em 1 cérebro, quanto desejo existe entre 2 pessoas, quanta segredos existem entre 4 paredes?

Hoje muita gente me perguntou como é ter 30 anos. Eu respondi honestamente que é igual ter 29. Mas porque a minha vida aos 30 não está muito distante do que foi aos 29. E aí voltamos à questão das coisas que associamos a cada idade. Aos 30 eu pensava que seria uma adulta e é realmente isso que eu acho que eu sou em tantos aspectos. Acredito que, nesse caso, a expectativa, depois de caminhar 30 anos, chegou aqui e encontrou algo talvez bem diferente do que sonhava, mas bem parecido com o que esperava.

Eu continuo a não entender o que é esse número: 30. Mas também nunca entendi nenhum dos outros. Então, tudo bem. Melhor mesmo levar a idade como sendo algo para se ticar num box, para saber se posso comprar vinho e para onde iria se fosse presa, do que para ser a base de todas as minhas decisões na vida. Porque se cada número é um pequeno infinito, não importa muito em qual infinito se está, mas sim qual parte desse infinito você vai explorar. Ao invés de ficar tentando cercar o infinito com definições, medidas, padrões o melhor mesmo é viver sabendo que você pode andar tranquilamente sem rumo pois, nem assim, vai dar de cara com a parede. Afinal, infinito não tem parede e idade não devia ter limite.

30 anos

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