E assim foi 2017

Neste momento estou em um café, olhando a Praça do Rossio, tão longe de onde comecei o ano de 2017. Pode parecer clichê estar escrevendo em um café próximo a uma atração turística, mas a verdade é que ao chegar ao fim da jornada que foi o ano passado, eu me dei conta do quanto queria realizar esse clichê. Achei que seria no mínimo simbólico escrever meu post retrospectiva dessa forma, começando o novo ano realizando desejos, mesmo que bobos.

Pelo que percebi, 2017 foi um ano esquisito para a maior parte das pessoas. Para mim foi. Desde que conheci meu marido, há 4 anos e meio atrás, parece que todos os anos temos um objetivo grande que faz todo o resto da vida ficar um pouco no modo espera: uma viagem cara, comprar e mobiliar apartamento, casar… E, ao que tudo indicava, 2017 ia ser finalmente o ano de respirar. Já havíamos incorporado o financiamento no nosso orçamento, os dois estavam bem empregados, o casamento e a lua de mel estavam pagos. Finalmente poderíamos sair um pouco mais, talvez trocar o sofá improvisado de casa, reformar o banheiro, e essas outras coisas que estavam na lista do “quando der”. Mas, um pouco antes do início do ano ele recebeu uma proposta de emprego em Lisboa e a poeira que parecia estar baixando virou um tornado. Começamos 2017 morando nos meus pais, com o Bruno já trabalhando remotamente para cá, vivendo já em outro fuso horário enquanto corríamos atrás das coisas do visto dele. Eu fazia freelas, trabalhando da penteadeira desconfortável no meu antigo quarto, enquanto meus pais faziam um enorme balabarismo para nos acomodar, cuidar do nosso sobrinho durante o dia e seguir o quanto dava da rotina deles. Foi muito estressante para todos.

Depois de chegar, eu passava noites em claro no desconfortável hotel onde estávamos hospedados, com medo de não acharmos um bom lugar para morar em uma cidade em que o turismo transformou o mercado imobiliário em um hospício. Claro que deu tudo certo e tivemos a sorte de conseguirmos um bom apartamento. Assim, tivemos nossa primeira experiência no Ikea, nos mudamos e eu fiquei uma semana de cama por ter travado as costas carregando as caixas de móveis, após estrear no hospital público português. Eu sempre imaginei que morar em outro país fosse difícil e esse primeiro ano morando em Portugal me confirmou o que eu já sabia e me surpreendeu com dificuldades que eu não imaginava encontrar, pelo menos não de forma tão resistentes. Por mais que a cultura aqui seja razoavelmente próxima da nossa, é muito complicado não ter referência alguma de nada: não saber onde arrumar o sapato, fazer a unha, comprar a melhor carne, sair para jantar. São coisas tão simples, mas que quando você se vê sem, fica meio perdido. É uma vida toda para ser redescoberta, reescrita. E sim, você sempre será estrangeiro e às vezes só o que quer conversar com alguém que já conhece sobre algum assunto que não seja “como é tal coisa no Brasil?”. E aí entra uma das vantagens de estar morando em Lisboa: tem muita gente visitando. Rever um amigo ou familiar é a coisa mais maravilhosa que existe quando você mora longe e nós tivemos a sorte de termos visto muita gente por aqui, além de termos recebido meus pais em casa, por três maravilhosas semanas.

Nesse ano que passou, meu marido mudou novamente de emprego, eu entrei e saí de uma empresa, fui ao Brasil buscar nosso cachorro, fui parar no hospital duas vezes, fomos no show do Aerosmish, fiz algumas aulas de ballet, me inscrevi e saí da academia, fui no Websummit, voltei a ser freela, fizemos poucos mas bons amigos, tirei certificação do Google, fiz curso de content marketing, de UX, de design thinking. Fizemos amigo secreto a distância, recebemos presentes por correio, eu ganhei coisas que queria muito, fizemos horas de facetime e visitamos muitos lugares do nosso novo país: Sintra, Cascais, Arrábida, Costa da Caparica, passamos pela Costa Vicentina, visitamos diversas praias no Algarve, fomos para o Porto, Aveiro, Entroncamento, Torres Novas, Nazaré, Guimarães e para Braga. O mais estranho é que eu só me toquei de tudo isso quando fui separar as fotos para fazer uma restrospectiva no Stories do Instagram, pois até então achei que não tinha feito quase nada em 2017. Olha que loucura! A vida passa, acontece, rebola na nossa cara e a gente mal vê.

Esse é o primeiro ano da minha vida que eu senti que não só cresci, mas envelheci. Não me sinto mais uma jovem, me sinto uma adulta, que não está no melhor momento da vida, mas que também não está no pior. E não é isso que é a vida? Um meio termo que às vezes, e só às vezes, tem picos para cima e para baixo? Tive que aprender a conviver com o desconforto da saudade, do medo de ser esquecida, de me destacar como eterna estrangeira, de não ganhar tão bem quanto no Brasil, de não ter aqui o pouco de reconhecimento profissional que eu tinha na minha cidade natal, de não ver meu sobrinho crescer de perto, de não pegar o bebê da minha amiga no colo, de não estar nos momentos importantes da galera, de não visitar a família. Mas, em compensação, eu aqui ando livre, sem medo, chego em casa sozinha a qualquer hora, passeio com meu cachorro sem medo de o tirarem de mim, não preciso pensar antes de mexer no meu celular em qualquer lugar, tomo bons vinhos… Aqui eu experimento coisas novas, visito lugares inéditos e praticamente aprendo uma nova língua. Aqui eu vejo como é morar em uma cidade turística, em que tem sempre muita coisa acontecendo e vejo gente do mundo, todo o tempo todo.

Quando era mais nova, eu desejava morar fora para me reinventar. Mas, agora estando aqui, percebo que passo muita parte do tempo tentando voltar a ser exatamente o que eu era no Brasil, sem tirar nem pôr. E, quer saber? Nenhuma das duas coisas é possível. Assim como você vai sempre carregar sua bagagem emocional com você, você também vai necessariamente mudar diante das novas experiências. E tá tudo bem. Melhor abraçar sua metamorfose ambulante e viver o melhor de cada fase, pois assim como eu não imaginava que passaria 2017 longe da estabilidade que achei que teria e do meu país, eu também não sei exatamente o que vai acontecer no futuro. Então, quero aproveitar 2018 como ele vier, me compromentendo a tentar tomar as rédeas do meu caminho, mas sabendo também dançar conforme a música. Nem me prender demais, nem me soltar completamente. Engraçado que, ao escrever isso, lembrei uma famosa frase dita por um personagem do Bruce Lee, que nem sei como conheço, pois nunca vi de fato a cena, mas pesquisei e a citação toda em que ela está inserida é muito boa:

“Don’t make a plan of fighting.That is a very good way to lose your teeth. […]
If you try to remember you will lose! Empty your mind. Be formless, shapeless, like water. Put water into a cup, it becomes the cup. Put water into a teapot, it becomes the teapot. Water can flow or creep or drip or crash. Be water, my friend.”

Acho que mais que o poder de adaptação, a água traz também a ideia de força, de rumo, de ser, ao mesmo tempo, mutável mas pura na sua essência. Então a lição  que fica de 2017 para mim, é essa.

Be water, my friends.

1 comment

  1. Se eu pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo te carregaria no colo,te faria um carinho e diria; não se preocupe,eu estou aqui…..mas os filhos são como as aves, aprendem a voar e deixam o ninho onde nasceram….não sabem exatamente o que vão encontrar, mas voam porque essa é a sua natureza. O mundo é gigante e os caminhos são muitos.O importante é seguir adiante…e com fé. A vida é assim.

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