Curiosidades e diferenças de morar em Portugal

A Giulia Pizzignacco me deu a dica de fazer um post com minhas primeiras impressões sobre Portugal uns meses atrás e a ideia não saiu mais da minha cabeça. E, como hoje faz exatamente um ano que desembarcamos aqui em Lisboa, achei que seria perfeito “comemorar” com esse post, comentando o que até agora chamou mais minha atenção e quais são as principais curiosidades e diferenças de morar em Portugal, pelo menos para nós brasileiros.

Moradia

  • Enquanto muitos condomínios brasileiros não aceitam nada que mude a fachada dos prédios, como obras e até mesmo roupas penduradas, aqui as pessoas fecham as sacadas como bem entendem, sem seguir nenhum padrão do prédio e janelas e varandas são exatamente onde as roupas são colocadas para secar, mesmo que você more no térreo e suas roupas fiquem no mesmo nível da rua, ao alcance das mãos dos passantes.

  • Aliás, térreo aqui chama-se rés do chão e grande parte dos prédios tem apartamentos nesse nível. E, diferente da maioria dos apartamento térreos de São Paulo, os daqui não tem nenhuma parede entre o prédio e a rua e as portas e janelas dão diretamente para a calçada.

  • Se você achou ruim morar no rés do chão, saiba que muita gente mora em caves, que são basicamente apartamentos abaixo do nível da rua. Esses normalmente só tem pequenas janelas na parte superior dos cômodos que são engraçadas de ver de fora.

janela de cave em predio portugues
Essas janelas pequenas quase ao nível do chão, na parte da parede revestida em pedra, pertencem à cave do prédio.
  • Como muitos prédios são antigos e baixos é mais comum morar em um sem elevador do que em um que tenha essa “modernidade”. E por baixo, me refiro a 3 ou 4 andares.

Deslocamento

  • As pessoas acham que um lugar que está a 40 minutos de distância é longe. Como eu sou são de São Paulo, acho engraçado já que 40 minutos é um tempo bem aceitável de deslocamento na minha enorme e congestionada cidade.

  • Aqui, o metrô chama Metro, o ônibus chama autocarro, o bonde chama elétrico e o trem chama comboio.

  • O ponto do autocarro chama paragem, a plataforma do metro chama cais e o que em São Paulo chamamos de trem ou carro do metrô, aqui chama-se carruagem.

  • No centro de Lisboa não podem circular carros que foram fabricados antes do ano 2000, em uma tentativa de conter a poluição na região. De toda forma, muita gente prefere usar o transporte público quando vai a essa parte da cidade, pois é muito complicado conseguir estacionamento na Baixa.

  • Ah, sim, o centro de Lisboa também é chamado de Baixa, pois fica na parte baixa da cidade.

  • O equivalente mais famoso do Sem Parar aqui chama-se Via Verde.

  • Pedágio aqui chama-se portagem.

  • O pedestre é muito respeitado aqui e mesmo que o carro esteja quase passando a faixa, se você aparece querendo atravessar, o motorista freia.

Lisboa do alto
Lisboa vista do alto, com a Ponte 25 de Abril ao fundo.

Idioma

  • Aqui algumas palavras, expressões e maneiras de falar são bem diferentes das que usamos no Brasil, apesar de falarmos essencialmente a mesma língua. Para começar eles nunca estão “fazendo” alguma coisa, mas sim estão “a fazer”, “a correr”, “a ver”, “a ir”, “a falar” e assim por diante. Ou seja, o gerúndio não é muito utilizado aqui.

  • Geladeira chama-se frigorífico, frigorífico chama-se caixa frigorífica, tela (como de TV) chama-se ecrã e o mouse chama-se rato.

  • Aqui existe uma palavra bem parecida com nosso maravilhoso “eita”, tanto na forma de falar como no seu uso: ena. Essa é basicamente uma expressão de surpresa, que pode ser boa ou má, dependendo da situação.

  • Aqui isopor é esferovite, banheiro é casa de banho, café da manhã é pequeno almoço e fita adesiva (o famoso Duxex) é fita cola.

  • Quando uma palavra tem sc, é pronunciada com o mesmo som de ch. Ou seja, os portugueses falam “pichina”, “nacheu”, etc.

  • Se você prestar bem atenção, nota que é comum pronunciarem verbos terminados em “r” com um “e” no final, como por exemplo “estou a falare”, “estou a andare” e por aí vai.

  • É comum em Portugal dar tchau falando “beijinhos”.

  • Aqui é educado a pessoa falar “com licença” antes de desligar o telefone e, quando atendem, os portugueses não dizem “alô”, eles falam “tô”, de “estou”. Ah, celular aqui é telemóvel.

  • Se ler em algum lugar a sigla “sff” saiba que significa “se faz favor”, que é o equivalente ao nosso por favor.

  • Legal é “fixe” (se pronuncia “fiche”) e bonito é “giro”.

  • Para muitos portugueses, o brasileiro não fala português do Brasil, fala brasileiro.

Costumes

  • Antes de vir, lemos que os Portugueses são muito literais e que, por exemplo, se você falar “me vê um pão” eles vão simplesmente olhar o pão. Mas não é bem assim. Se você falar “Oi, bom dia! Como vai? Me vê um pão, por favor”, você provavelmente receberá seu pão normalmente. Eles estão muito acostumados com nosso jeito de falar e, se fizeram algo assim, provavelmente foi por acharem que você não foi cortez o suficiente.

  • Em Portugal ainda não é proibido fumar em locais fechados e alguns restaurantes ainda tem áreas de fumantes, inclusive. E, por sinal, tenho a impressão que muitos portugueses fumam.

  • Aqui, quando as pessoas se cumprimentam com beijinhos no rosto dão sempre dois.

  • É muito comum ver os Portugueses reclamando de Portugal mas, ao mesmo tempo, eles são bastante patriotas. Acham seu país lindo (não estão errados) e dão preferência para comprar produtos portugueses. Os vendedores até avisam se tem uma opção que pode ser até um pouco mais cara, mas é portugesa. Se no Brasil temos a tendência de achar produtos importados mais valiosos que os nacionais, aqui é bem ao contrário.

Alimentação

  • Aqui de fato come-se muito peixe, mas também é fácil achar frango e carne, especialmente de porco.

  • Além dos diversos pratos de bacalhau que conhecemos no Brasil, outro prato bem típico aqui é o polvo à lagareiro. Um polvo cozido, servido com batatas, alho e azeite. É muito bom!

Polvo à lagareiro do restaurante Frade dos Mares
Polvo à lagareiro do restaurante Frade dos Mares
  • Outras iguarias típicas são as bifanas, um lanche de porco, e os pregos, um lanche de bife de vaca. E, se quiser comer esse bife de vaca em um prato com arroz, ovo e fritas, então é um bitoque. Ou prego no prato, nem os portugueses parecem ter decidido ainda a diferença entre prego e bitoque.

  • O que chamamos de limão sisciliano no Brasil, aqui chama-se só limão. O nosso limão verdinho aqui é lima. Ah, e abobrinha chama-se curgete.

  • E mais triste de tudo: aqui não tem catupiry.

Um ano morando em Portugal

Mesmo já tendo conhecido o país quando era criança, eu já não lembrava muito de como eram as coisas por aqui, então esse foi, com certeza, um ano de muita descoberta e aprendizagem. E, mais que isso, um ano é, querendo ou não, muito pouco para achar que já se conhece completamente um local ou uma cultura. Ainda assim, cada dia que passa me sinto mais em casa por aqui, apesar da saudade que sempre fica para trás. Por isso quis passar um pouco das minhas impressões, 365 dias depois de chegar nessa aventura e, quem sabe, daqui um, dois ou mais anos eu não volto aqui para confirmar ou perceber o quanto eu estava enganada sobre essas diferenças e curiosidades de se morar em um país tão rico em história como Portugal.

E, se quiser ver o outro lado da moeda de morar fora da sua cidade natal, dá um pulo no meu post que fala dos 5 motivos para sentir saudade de São Paulo.

1 comment

  1. Muito interessante esse jeito de perceber as peculiaridades do local. As novidades, curiosidades e diferenças foram comentadas de forma respeitosa e isso empresta seriedade aos comentários. Gostei.

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